BRANDING

Entenda por que vender bem não basta no food service e como uma marca forte pode aumentar percepção de valor, preferência e relevância no mercado.

SABRINA KRUGER

6 min

O food service aprendeu a vender. Agora precisa aprender a construir marcas.

O food service ficou muito melhor em vender.

Nos últimos anos, empresários de bares e restaurantes aprenderam a olhar para CMV, ficha técnica, ticket médio, engenharia de cardápio, tráfego pago, delivery, recorrência, produtividade e margem. O setor se profissionalizou… e precisava.

Hoje, é relativamente comum encontrar negócios que sabem exatamente quanto custa um prato, quanto cada mesa consome e quais horários são mais rentáveis.

Mas existe uma pergunta que quase nunca aparece na mesma planilha:

quanto vale a marca desse restaurante?

Porque uma empresa pode aprender a vender sem necessariamente aprender a construir marca.

E essas duas coisas não são iguais.

Uma casa cheia não prova que existe uma marca forte

Existe uma lógica perigosa no mercado: se o restaurante está cheio, está tudo certo. Não necessariamente.

Um restaurante pode lotar porque está bem localizado. Porque o produto é bom. Porque o preço é competitivo. Porque existe pouca concorrência naquela região. Porque o dono é conhecido. Porque um prato viralizou. Porque uma promoção funciona muito bem.

Tudo isso gera venda. Mas não necessariamente gera marca.

David Aaker, um dos principais autores sobre gestão de marcas, ajudou a consolidar a ideia de brand equity: o valor adicional que uma marca passa a gerar sobre um produto ou serviço.

Em outras palavras, duas empresas podem vender exatamente a mesma coisa, mas uma delas ser percebida como mais relevante, desejável e valiosa.

Essa diferença não está necessariamente no prato. Está na marca.

O restaurante pode valer mais do que parece

Esse talvez seja um dos maiores desperdícios que vejo hoje no food service. Negócios excelentes que parecem medianos. A comida é boa. O serviço funciona. A operação é organizada. O faturamento é saudável.

Mas a fachada parece de outro negócio. O cardápio parece ter sido criado cinco anos atrás por outra pessoa. O Instagram muda de estética toda semana. A embalagem não conversa com o salão. A linguagem não tem personalidade.

Cada ponto de contato diz uma coisa diferente. E quando a marca não consegue construir coerência, o consumidor precisa fazer mais esforço para entender aquele negócio.

Jean-Noël Kapferer, autor do modelo conhecido como Prisma de Identidade de Marca, defende que marcas fortes constroem uma identidade consistente a partir de elementos como personalidade, cultura, relacionamento e autoimagem.

Isso ajuda a entender por que identidade visual, comunicação e experiência não deveriam existir como peças isoladas. Elas precisam contar a mesma história.

E não, isso não significa que branding seja só estética

Durante anos, repetimos que “branding não é logotipo”. Correto. O problema é que algumas empresas entenderam isso como autorização para negligenciar completamente a estética.

Também não funciona.

A identidade visual não é toda a marca, mas é uma das formas mais rápidas de comunicar aquilo que a marca pretende representar. Kevin Lane Keller fala sobre a importância das associações de marca: tudo aquilo que o consumidor conecta mentalmente a uma empresa.

Cores, símbolos, ambientes, linguagem, atendimento, preço e experiência ajudam a formar essas associações.

Então, sim: estética importa.

Não porque tudo precisa ser bonito. Mas porque tudo comunica. E quando um restaurante cobra R$ 120 por pessoa e se apresenta como se cobrasse R$ 40, existe uma incoerência entre produto, posicionamento e percepção.

O problema talvez não esteja no preço. Pode estar na marca.

Marca não é o que o restaurante diz que é

Marty Neumeier resume branding de uma forma especialmente útil: marca não é aquilo que a empresa diz sobre si mesma. É aquilo que as pessoas entendem sobre ela.

Essa ideia muda completamente a conversa. Porque pouco importa escrever “somos sofisticados” na apresentação comercial se o ambiente, o serviço, o cardápio e a comunicação parecem genéricos. Pouco importa dizer que o restaurante é jovem se sua identidade parece antiquada. Pouco importa dizer que a experiência é premium quando absolutamente nada ao redor sustenta essa percepção.

Posicionamento não acontece dentro de um PDF. Acontece na cabeça de quem compra.

O produto continua sendo importante. Mas ele não resolve tudo.

Aqui existe outro erro comum. Alguns empresários acreditam que, se o produto for suficientemente bom, todo o resto será consequência. Produto é fundamental. Mas existe uma quantidade enorme de produtos excelentes competindo pela mesma atenção.

Byron Sharp, autor de How Brands Grow, ficou conhecido por defender a importância da disponibilidade mental: a capacidade de uma marca ser lembrada em situações de compra. Isso é particularmente interessante para restaurantes.

Quando alguém pensa:

“onde vamos jantar hoje?”

Quais marcas aparecem primeiro?

Quando pensa:

“quero comemorar meu aniversário.”

Quem vem à cabeça?

Quando pensa:

“quero comer uma pizza boa.”

Qual nome aparece?

É essa presença mental que transforma um restaurante entre dezenas de opções em uma escolha provável. E isso não acontece apenas porque a comida é boa. Acontece porque a marca construiu sinais suficientes para ser lembrada.

O food service já aprendeu bastante sobre performance

Durante muito tempo, grande parte do conteúdo para empresários do setor esteve concentrada em eficiência.

Como vender mais.

Como reduzir custos.

Como aumentar ticket.

Como melhorar margem.

Como trazer clientes.

Tudo isso continua importante.

Mas chega um momento em que dois negócios igualmente eficientes precisam disputar alguma coisa além da operação. Precisam disputar percepção. É aí que marca deixa de parecer uma preocupação estética e passa a ser estratégia competitiva.

Porque concorrentes podem copiar pratos.

Podem copiar promoções.

Podem copiar preços.

Podem contratar profissionais parecidos.

Podem abrir na rua ao lado.

O que é muito mais difícil reproduzir é uma marca que acumulou significado ao longo dos anos.

Construir marca também é construir patrimônio

Talvez seja essa a mudança de mentalidade mais importante. Branding não deveria ser tratado apenas como uma despesa de comunicação. Marca é um ativo. Existe uma diferença importante entre possuir um restaurante que fatura R$ 500 mil por mês e possuir uma marca capaz de gerar R$ 500 mil por mês.

No primeiro cenário, o faturamento pode depender completamente daquele endereço, daquela cozinha ou da presença do fundador.

No segundo, existe algo transferível. A marca pode abrir outra unidade. Pode lançar um produto. Pode entrar no varejo. Pode licenciar. Pode criar novas experiências. Pode continuar existindo mesmo quando algumas partes da operação mudarem. É justamente aí que o valor começa a ultrapassar a venda do mês.

Talvez a próxima grande evolução do food service seja essa

O food service já percorreu um caminho importante de profissionalização. Aprendeu a controlar custos, melhorar processos, acompanhar indicadores, investir em mídia e criar estratégias mais eficientes para vender.

Agora, o próximo passo talvez seja menos operacional e mais simbólico: aprender a construir significado.

Porque, em mercados cada vez mais competitivos, não basta saber quantas pessoas entraram no restaurante ou quanto gastaram. É preciso entender por que escolheram aquela marca entre tantas outras; e, principalmente, o que permanece na memória depois que a conta chega.

É essa memória que transforma uma experiência em preferência. E preferência, quando construída de forma consistente, deixa de depender apenas de promoção, localização ou conveniência.

Um restaurante pode vender muito sem necessariamente ter construído uma marca forte. A diferença aparece quando o negócio consegue atravessar o produto, o endereço e até o momento econômico sem perder relevância para o público.

Talvez seja essa a discussão que o food service precise fazer agora: não apenas como vender mais, mas como fazer cada venda contribuir para a construção de um ativo maior.

Porque faturamento registra o resultado de um período.

Marca acumula valor ao longo do tempo.

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